
An so it is.
Como começa, eu não sei. Mas termina com alguém – normalmente alguém significativo, importante, uma pessoa que tem minha admiração – me achando o máximo e eu, lá na frente, achando que fui a pior pessoa do mundo. Egoísta. Maníaco-depressiva (eu sei que não usam mais isso). Tola e obtusa. Histérica, neurótica, paranóica, suicida. Insuportável.
Termina dez anos depois, eu pedindo milhares de desculpas (sinceras) por ter sido intratável, ruim, pequena e mesquinha, por ter me escondido sob um véu de. Não sei de quê. Seja lá como você me enxergava, complete a frase, por favor.
***
Como começa: com alguém me apresentando.
- Tia, essa é a Prilinda.
Ou:
- Essa é a Priscilla, minha namorada.
E isso significando tudo.
***
Ao menos agora eu já tenho algumas respostas. Se alguém me perguntar por que é que não ficamos juntos, a resposta é simples, está na ponta da língua. Porque você não quis. Não quer. E talvez em dez anos eu me culpe por não ter sito persistente o suficiente, ao invés de teimosa de agora. Aí, se o mundo ainda não tiver acabado, eu me culpo. Ops, me desculpo.
***
Como começa eu não sei. Mas sei que demora um tempão até enxergar certas coisas. Como demora agora para parar de te trair toda vez que você me trata mal, colocando em prática um processo muito particular de piorização do ser humano que, a bem da verdade, nem foi você que me ensinou. Eu já praticava há tempos, eu tinha era me regenerado.
***
E eu sei que agora não termina quando devia. Alonga-se mais do que precisava. Eu insisto, mesmo quando todo mundo já deu a causa por perdida há séculos. Eu carrego um livro que se chama O Passado, cuja edição é linda e que algumas vezes me faz chorar. Existe no mundo metáfora melhor que essa?
Sei que agora não termina quando deveria. Eu insisto, mesmo nos hiatos, nos silêncios. Mesmo sabendo das mentiras. Algumas vezes ainda insisto mesmo nos gritos, mesmo quando desligam o telefone na minha cara. Sabendo que, na verdade, já não significa nada. Eu progrido um pouco, mas continuo sendo a que quer demais. Eu tenho certa consciência, o que estranhamente não me faz um ser humano melhor.
No ônibus, eu olho para velhinhas amargas que discutem com o nada e não arredam o pé de estarem sempre certas. Com o nada. E tenho medo de já ser uma delas.
Só sei do meio. Nem do começo, nem do fim. E nesse meio, embora cheio de histórias, ilustrações e letrinhas, embora cheio de filmes, trilhas sonoras, fotografias e pessoas, meu esforço para me equilibrar (no chão, mesmo – nenhuma corda bamba) nunca parece o suficiente. E quando me equilibro, todo o espaço em volta é grande, oco, vazio.
***
- Essa é a minha mulher – ele disse.
E eu ruborizei de vergonha alheia pela primeira vez porque, embora eu quisesse muito, sabia que não era verdade.
***
Um dia, dormi de boca aberta e todas as borboletas que moravam no meu estômago foram embora.