Posts de Junho, 2008

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Vácuo

Junho 13, 2008

Sempre quis, sempre quis.

Ele me encostou contra a parede do bar e fez as promessas mais sórdidas sem dizer uma palavra. Eu acreditei em todas e quis mais. Negociei até com santo meus futuros pecados, tentando garantir que sentiria de volta aquela boca que me adivinhava coisas mordendo meus ombros, aquela mão na minha nuca puxando meus cabelos do jeito que eu gostava, sem que eu precisasse ensinar.

O peito pressionado contra o meu até faltar o ar. “Vontade de arrancar seu vestido”, ele respirou em minha boca, afastando o rosto por um instante para ver minha expressão. Que era de sede no deserto, de súplica por mais, que era de “como é que você sabe exatamente assim”. Sorriu.

Deixei que a gravidade atuasse de forma heterodoxa, sentindo o peso dele sobre mim ainda em pé. Ele segurava meus braços com força, como se a qualquer momento fosse me fazer ajoelhar na sua frente. E eu teria ajoelhado, subjulgada, doce e obediente. Aderente ao corpo que me dominava, mal podia me mover.

Pressionou os quadris bem esculpidos contra as minhas costas, as coxas quentes acompanhando o desenho e a posição das minhas. Li em braile a definição dos músculos das costas, os oblíquos dos quadris em V que ainda agora me enchem a boca d’água. Damn it: lembrei por quê raios eu deveria morar sozinha. Nós não iríamos a lugar algum.

“Fica a idéia”, ele disse então. Não tinha muito a dizer. Nem precisava. Quando o primeiro beijo interrompeu a frase no meio, eu já sabia que ela nunca mais seria completada. Certos ballets dispensam o livreto. Por isso, quando trocamos a comunicação dos gestos pelos microtextos, apelei aos santos. Palavras são de meu domínio, mas eu desejava mesmo a biologia.

O calor do cálice que bebi naquela noite durou horas. Por dias ainda senti seu hálito em minha boca. Não reconhecia nem as minhas próprias mãos ao me tocar.

Ficou uma fome, uma fome, uma fome.

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Segredos de abismos

Junho 8, 2008

E agora?

Tento não pensar, como sempre. Mas, como sempre, sei que as coisas mudaram muito em muito pouco tempo, e esse descompasso de mobílias e sentimentos se rearranjando faz minha respiração ficar entrecortada. Meus ombros não pesam como em outrora: tudo já está dito e feito. Todas as cartas na mesa, o ponto em que não se pode voltar, alcançado. E é por isso que tento não pensar.

O calor do começo se esvaece: aqui vão quatro, cinco, seis meses de cartas e músicas e desenhos e segredos e juras e entregas. Tudo posto, tudo dito, a certeza da propriedade dá margem à primeira respiração profunda em dias: então olhamos para os lados e começamos a reparar no que existe ao redor e nas possibilidades.

Vejo calmamente as letras surgindo uma a uma de meus dedos, aparecendo nos lugares certos. Alívio. Mas teus olhos… Teus olhos já não me acompanham. Um ar de incerteza paira, como se o que nos colasse fosse exatamente o segredo, o não exposto. O que nos alimentava eram os subterfúgios, as tardes escondidas, o calor do não sabido, os véus. E não há mais nada disso. Resta-nos a realidade e encarar quais promessas ficam nessa decantação.

Agora tudo está exposto e precisamos rever, rever, rever, enquanto dividimos a cama em público. Naturais as dúvidas, pardas, amarguinhas, pequenas formigas perdidas na mesa do café da manhã que tomamos em silêncio. Nós as afastamos sorrindo – talvez nem piquem. Só existindo poderiam nos fazer mal? Dentro da gente existe um “e agora?” infinito, não adianta dizer que não, não adianta comer pão com geléia pra enganar o estômago e dar risada. Só existindo, poderiam nos fazer mal?

Não sei onde estão as esperanças e vontades, talvez numa das caixas de mudança espalhadas pela sala, a bagunça que tenho preguiça de arrumar. Ligo a tv: depois arrumamos. Sempre tenho medo das aranhas que aparecem, medo do tamanho dos sentimentos que nós conseguimos encaixotar e de que eles não cheguem ao destinatário correto depois de tanto esforço, depois de segurar tantas barras. Medo que tenhamos escrito um conto de fadas às avessas por força das necessidades de ambos.

Daqui de onde enxergo, vejo o telhado de uma casa que ruiu e que está finalmente por desabar. Logo não saberás para onde correr: em certos momentos minhas paredes nem figuram na tua lista de possíveis abrigos. Daqui de onde enxergo, o menino perdido não sabe o que fazer e nem pra onde ir, e é questão de tempo até que descubra ou acredite que se enganou no que sentia. Não era tão grande, não era tão forte nem tão intenso.

Minhas asas batem: refreio com força o vôo inevitável da fuga quando vislumbro essas dores. Não posso fugir mais, nunca mais, já gastei todas as rotas. Eu só não queria sentir dor, mas como ela é inerente à milhagem, que venha se assim tiver de ser, com a mesma força que o desejo que nos uniu. Na mesma capela que conhecemos ainda pequenos, rezo com força para que eu esteja enganada.