
Segredos de abismos
Junho 8, 2008E agora?
Tento não pensar, como sempre. Mas, como sempre, sei que as coisas mudaram muito em muito pouco tempo, e esse descompasso de mobílias e sentimentos se rearranjando faz minha respiração ficar entrecortada. Meus ombros não pesam como em outrora: tudo já está dito e feito. Todas as cartas na mesa, o ponto em que não se pode voltar, alcançado. E é por isso que tento não pensar.
O calor do começo se esvaece: aqui vão quatro, cinco, seis meses de cartas e músicas e desenhos e segredos e juras e entregas. Tudo posto, tudo dito, a certeza da propriedade dá margem à primeira respiração profunda em dias: então olhamos para os lados e começamos a reparar no que existe ao redor e nas possibilidades.
Vejo calmamente as letras surgindo uma a uma de meus dedos, aparecendo nos lugares certos. Alívio. Mas teus olhos… Teus olhos já não me acompanham. Um ar de incerteza paira, como se o que nos colasse fosse exatamente o segredo, o não exposto. O que nos alimentava eram os subterfúgios, as tardes escondidas, o calor do não sabido, os véus. E não há mais nada disso. Resta-nos a realidade e encarar quais promessas ficam nessa decantação.
Agora tudo está exposto e precisamos rever, rever, rever, enquanto dividimos a cama em público. Naturais as dúvidas, pardas, amarguinhas, pequenas formigas perdidas na mesa do café da manhã que tomamos em silêncio. Nós as afastamos sorrindo – talvez nem piquem. Só existindo poderiam nos fazer mal? Dentro da gente existe um “e agora?” infinito, não adianta dizer que não, não adianta comer pão com geléia pra enganar o estômago e dar risada. Só existindo, poderiam nos fazer mal?
Não sei onde estão as esperanças e vontades, talvez numa das caixas de mudança espalhadas pela sala, a bagunça que tenho preguiça de arrumar. Ligo a tv: depois arrumamos. Sempre tenho medo das aranhas que aparecem, medo do tamanho dos sentimentos que nós conseguimos encaixotar e de que eles não cheguem ao destinatário correto depois de tanto esforço, depois de segurar tantas barras. Medo que tenhamos escrito um conto de fadas às avessas por força das necessidades de ambos.
Daqui de onde enxergo, vejo o telhado de uma casa que ruiu e que está finalmente por desabar. Logo não saberás para onde correr: em certos momentos minhas paredes nem figuram na tua lista de possíveis abrigos. Daqui de onde enxergo, o menino perdido não sabe o que fazer e nem pra onde ir, e é questão de tempo até que descubra ou acredite que se enganou no que sentia. Não era tão grande, não era tão forte nem tão intenso.
Minhas asas batem: refreio com força o vôo inevitável da fuga quando vislumbro essas dores. Não posso fugir mais, nunca mais, já gastei todas as rotas. Eu só não queria sentir dor, mas como ela é inerente à milhagem, que venha se assim tiver de ser, com a mesma força que o desejo que nos uniu. Na mesma capela que conhecemos ainda pequenos, rezo com força para que eu esteja enganada.
