Do elo

De si, sentia apenas os pulsos e os tornozelos circundados por pulseiras de aço. Não tão apertadas que machucassem, não tão soltas que se permitissem desvencilhar. Tinham um brilho fosco, exatamente como o anel que levava no anular esquerdo. Estanho.

Sentia os cílios longos baterem contra a lente dos óculos escuros, cuja armação eventualmente servia de prateleira às lágrimas que escorriam involuntariamente. Mas só às vezes.

Podia mover-se quase livremente. Andava pelas ruas como se nada houvesse, mestre de seu próprio cativeiro, sequestrador e sequestrado em plena Síndrome de Estocolmo. Era isso o que o outro desejava e o que desejava do outro: a sensação ilusória de poder mover-se livremente embora estivessem fortemente atados.

Os elos das correntes, em forma de coração, ainda assim eram elos. Eles, elos. Coração engatado em coração engatado em coração engatado no pulso. No tornozelo, atrapalhando os passos. As correntes invisíveis que arrastavam eram os próprios fantasmas.

No peito, o músculo cardíaco ileso, batendo regular. O coração intacto, trancado numa cela de aço. Intocado, puro. Cinto de castidade. Engolira a chave. Nunca mais.

No exato instante em que pensava “nunca mais”, olhos fechados, sentiu um par de luvas jogar longe os óculos escuros, esbofeteando sua face, incitando ao duelo.

Quarenta

Melisandre

A coisa mais certa que posso dizer sobre chegar aos 40 é que hoje eu entendo bem mais quem me dizia, aos 20, para não ficar me vestindo de séria e adultona porque teria tempo disso quando a hora adultona chegasse. Eu só queria ir lá atrás daquela menina que usava blazer e terninho aos 23 e dizer que, apesar da cara de estagiária, ela não precisava disso e devia ir ser feliz com umas roupas bem jovenzinhas.

Ela ia ouvir? Claro que não. Virei minha avó tão rápido, meu deus.

Ainda bem que minha avó (por parte de pai) é daquelas louconas de usar bijouterias enormes, coloridas e espalhafatosas trazidas do Egito, que adorava sair de vestido de jérsei estampado de onça, usava perfume forte e dormia sem calcinha porque não gostava de nada apertando (tudo no passado porque ela costumava ser assim. Agora já não sei mais, igreja, mais idade etc).

A chatice que mais me pego repetindo (entre todas) ultimamente é que ninguém te conta o quanto é assustador envelhecer. Sim, assustador. Eu entendo minha mãe (e as plásticas e a busca pela juventude eterna e o mentir a idade) tão melhor agora que dias desses sonhei que a abraçava e levava passear e falar sobre todas essas coisas e de como lidar com elas com muito carinho e aceitação. Imagino que a menopausa deva ser de pirar também.

Aquele vinco na testa que antes era só uma sombra. Aquela marca de travesseiro na bochecha que antes sumia em meia hora e agora leva praticamente a manhã toda. O traço do delineador que agora deixa o olho caído. Os peitos que você pode jurar que desceram dois centímetros depois que você tomou uma decisão super madura. A bunda que costumava ser mais pra cima, sem falar mais firminha. Essas veiazinhas roxas na coxa. O ar que falta depois daquela subida. E tem também a… Mas de que era mesmo que eu estava falando?

Central do Textão: nós somos a resistência

Escrever é fardo e sina. Você pode tentar se esconder (produzindo para terceiros ou editando outrem), você pode tentar evitar e resumir em 140 caracteres, mas tudo o que vai estar fazendo é tentar se livrar de um karma que também é um prazer. Mesmo que você ainda não seja bom o suficiente. Mesmo que você já seja bom o suficiente com livro publicado e tudo.

Qualquer dia preciso lembrar de falar pra vocês do livro da Rosa Montero, que me fez ver muito além do meu umbigo sobre o processo de escrever e sobre como os caras fodas são pessoas iguaizinhas a mim ou ao vizinho ou a você. E da alegria que senti ao me ver traduzida ali e de como não estou sozinha.

Aliás, não estamos. E agora estamos juntos aqui, num “movimento transgressor” pois na contramão da bolha criada pelo Zuckinha (aquele dono do Facebook e de meio mundo), de resistência, voltando ao blog de raiz numa iniciativa <3 da Tina, num feed cheio de gente grande e legal e boa. Um condomínio de blogs como os que eu costumava frequentar nos idos de 1998, com gente de verdade escrevendo sem Photoshop pra quem quiser ler.

Chega aí, não repara na bagunça do quarto porque acabei de me mudar, fique à vontade. Aproveita a vista aqui fora, a vizinhança é incrível.
Central do Textão

Volteando.

Facebook, Twitter e Instagram roubaram minhas frases longas e eu não sei mais postar. Mas vou tentar. Às vezes sou eu, às vezes é um personagem qualquer. De qualquer forma, não é um diário. É só um exercício porque preciso voltar a escrever. Volta aí.

Ontem vi o episódio de Girls (eu assisto, eu detesto, eu me detesto por assistir, fuckoff) em que a Nárnia (Marnie) sonha que está amorosamente penteando os cabelos do cara do café e decide que está apaixonada por ele (pelo menos pelo próximo episódio). Às vezes eu queria que as coisas que sinto nos sonhos durassem tudo isso, permanecessem tudo isso (um episódio?), um pouso mais que se dissiparem entre escovar os dentes e tomar café. Mas obviamente só algumas. O episódio em que meu pai é um serial killer, por exemplo, não, obrigada.

Sonhos escolhidos: o do Jason Momoa na semana passada, claro. E o de hoje, em que abraçava alguém de forma muito amorosa e compreensiva, mesmo que a pessoa estivesse cuidando de ratinhos e criando furões e isso não fizesse o menor sentido para nenhuma existência (principalmente a dessa pessoa). Não penteei cabelos de ninguém, mas compreendi os furões e abracei a pessoa como se cuidasse: “Olha, eu entendo teus ratinhos e teus furões. Que pena você só ter chegado a essa conclusão agora, que pena. There, there”.

Um sentimento bom, de compreensão, de perdão e até saudade. Então é isso. Voltei.

Easy rider

Eu costumava pensar que amores de verdade duravam para sempre. Hoje sei que eternidade é qualidade de uns poucos amores, e não característica intrínseca. Ao contrário do que eu também imaginava, nem todos os amores se transformam em outro tipo de sentimento, amor de outra espécie. Atualmente, duvido até da capacidade dele se transformar no que as pessoas costumam chamar de seu avesso – o ódio.

Não me lembro de ter odiado alguém que já houvesse amado, ao menos não de forma perene – cultivar um ódio como quem cultiva ou guarda um amor. E o contrário também vale: nunca acabei por amar alguém que tivesse odiado, embora me confesse extremamente principiante nas técnicas de odiar. Procuro evitar os exageros, principalmente os de emoções.

Amor acaba, sim. Bobagem achar que não. E isso, pra mim, é sempre triste. De uma tristeza infinita enquanto dura, de uma dor profunda que chega a ser física. E diferente a cada vez, exatamente como o amor se apresenta novo a cada experiência.

O amor acaba de ter uma parada cardíaca.

Hoje sonhei que passava por você de ônibus. Eu dentro de um, você em outro, nos cruzamos na canaleta do expresso. Cada um numa direção. Eu te olhei e não vi nada nem senti nada. Teus olhos vazios: sem perguntas, súplicas nem dúvidas. Você passava, eu passava, nos reconhecemos e seguimos, nenhum aceno, nem mesmo um cumprimento com a cabeça. Passou.

Um amor desses mortais pode levar tempo pra fenecer. Pode gastar tempos em cirurgias, inúmeras transfusões de sangue, sobreviver meses na UTI. E os desígnios nos são desconhecidos, não se sabe quem é que decide a vida/sobrevida de um amor, porque mesmo que racionalmente tudo se acabe, o sentimento pode ficar lá, em estado vegetativo, por tempo indeterminado. O amor é o único caso em que a morte cerebral não significa nada. E, esperando que tudo aconteça, a gente fica lá. Permanece no limbo, segurando a mão inerte ou observando pelo vidro. Caixas e caixas de kleenex.

Dentro da gente um coração que não para, por mais que não caiba mais no peito vazio. Parece que bateram todos os órgãos num liquidificador, e a casquinha que sobra mal consegue conter o conteúdo. Alguém me anestesiou. A exaustão é tamanha que já não se consegue nem chorar. Não há diálogo possível, só a espera – ou adiamento – do inevitável. Dor. De dorzinha em dorzinha, fenecer, desbotar até morrer.

Ou então um dia você acorda, olha para o lado e pensa, sem dor, só pesar: “o que é mesmo que estou fazendo aqui?”. Olha para o objeto de seu amor – no meio de um filme no cinema, durante o jantar – e subitamente o vê com outros olhos. Como apenas uma pessoa comum. E não consegue mais deixar de ver os defeitos irritantes, a mania boba ou aquela grande falha de caráter que antes estava encoberta por um véu cor de rosa. E se assusta. Como fui me enganar assim?

O amor acaba de sofrer uma segunda parada cardíaca.

Por mais que você tente recuperar o encantamento de outrora, já era, it’s gone. Já não há máscaras e fazer o balanço do “vale a pena” é inevitável, mesmo quando se sabe exatamente o resultado. E o gosto do outro, a vontade do outro, o querer do outro, sempre tão importantes, começam a entrar em conflito com o nosso próprio querer. E começa uma luta com a gente mesmo.

Massagem cardíaca, desfibriladores, epinefrina.

Já não penso mais que dar adeus a uma relação signifique a frustração de todos os planos e projetos não realizados, dos quais se tem de abrir mão. Sigo, mesmo após o fim, acreditando que todas as promessas eram verdadeiras, todos os desejos, reais, afinal. Tudo o que foi dito era realidade no momento em que as palavras foram articuladas, ainda que só em ideias e vontades. Recuso-me a pensar que o que foi dito era mentira. Prefiro acreditar na efemeridade sincera dos sentimentos.

Porque não te amo mais nesse exato momento não significa que nunca te amei. Porque não nos casamos não significa que nossa vontade de dividir, de ter uma vida juntos pela eternidade do nosso sempre, não tenha sido real. Prefiro acreditar que nossas juras e promessas apenas tiveram seu prazo de validade expirado. Dói menos, pelo menos em mim, e me faz sentir mais livre.

Dói mais sempre pra quem fica. Quem parte fez o balanço, quem vai sabe exatamente – ou ao menos tem idéia – do que estava acontecendo e porque está indo. Quem parte já pesou e conferiu os resultados. Quem deixa já fez as malas e, por mais que doa, já está preparado.

Quem fica não sabe o que fazer. Chora comendo pastel, se descabela no ponto do ônibus, tem acessos de raiva, atira coisas pela janela, alterna drama, silêncio, gritos, compreensão resignada e inconformismo histérico. Foi pego de surpresa, todos os planos ainda nas mãos, no anular esquerdo o comprometimento único arde agora sem brilho. Todos os planos ainda por serem realizados, todos os sonhos ainda morando na cabeça. Só o objeto de seu amor não está mais lá. Como um luto de alguém que não morreu. Como pode fazer isso comigo?

Ainda ontem minhas mãos pertenciam às suas; ainda ontem meu corpo era tua morada. Hoje, dentro de mim um deserto.

Quem vai parece saber mais de si. Quem fica se perde um pouco. Ambos saem da sala pessoas diferentes.

Sentada no banco de frente para mim, a moça no ônibus chora. Não sei se perdeu alguém, se um amor se acabou ou se cruzou com alguém na canaleta. Se deixou ou foi deixada, se perdeu ou perdeu-se. Gostaria de conseguir consola-la, mas sei que é impossível. Cada um tem seu tempo de luto. Não sei em que direção estamos indo e quero muito acreditar que isso não importa.

Pois bem, amores acabam, senhoras e senhores. E talvez isso nem sempre seja ruim.