Easy rider

Eu costumava pensar que amores de verdade duravam para sempre. Hoje sei que eternidade é qualidade de uns poucos amores, e não característica intrínseca. Ao contrário do que eu também imaginava, nem todos os amores se transformam em outro tipo de sentimento, amor de outra espécie. Atualmente, duvido até da capacidade dele se transformar no que as pessoas costumam chamar de seu avesso – o ódio.

Não me lembro de ter odiado alguém que já houvesse amado, ao menos não de forma perene – cultivar um ódio como quem cultiva ou guarda um amor. E o contrário também vale: nunca acabei por amar alguém que tivesse odiado, embora me confesse extremamente principiante nas técnicas de odiar. Procuro evitar os exageros, principalmente os de emoções.

Amor acaba, sim. Bobagem achar que não. E isso, pra mim, é sempre triste. De uma tristeza infinita enquanto dura, de uma dor profunda que chega a ser física. E diferente a cada vez, exatamente como o amor se apresenta novo a cada experiência.

O amor acaba de ter uma parada cardíaca.

Hoje sonhei que passava por você de ônibus. Eu dentro de um, você em outro, nos cruzamos na canaleta do expresso. Cada um numa direção. Eu te olhei e não vi nada nem senti nada. Teus olhos vazios: sem perguntas, súplicas nem dúvidas. Você passava, eu passava, nos reconhecemos e seguimos, nenhum aceno, nem mesmo um cumprimento com a cabeça. Passou.

Um amor desses mortais pode levar tempo pra fenecer. Pode gastar tempos em cirurgias, inúmeras transfusões de sangue, sobreviver meses na UTI. E os desígnios nos são desconhecidos, não se sabe quem é que decide a vida/sobrevida de um amor, porque mesmo que racionalmente tudo se acabe, o sentimento pode ficar lá, em estado vegetativo, por tempo indeterminado. O amor é o único caso em que a morte cerebral não significa nada. E, esperando que tudo aconteça, a gente fica lá. Permanece no limbo, segurando a mão inerte ou observando pelo vidro. Caixas e caixas de kleenex.

Dentro da gente um coração que não para, por mais que não caiba mais no peito vazio. Parece que bateram todos os órgãos num liquidificador, e a casquinha que sobra mal consegue conter o conteúdo. Alguém me anestesiou. A exaustão é tamanha que já não se consegue nem chorar. Não há diálogo possível, só a espera – ou adiamento – do inevitável. Dor. De dorzinha em dorzinha, fenecer, desbotar até morrer.

Ou então um dia você acorda, olha para o lado e pensa, sem dor, só pesar: “o que é mesmo que estou fazendo aqui?”. Olha para o objeto de seu amor – no meio de um filme no cinema, durante o jantar – e subitamente o vê com outros olhos. Como apenas uma pessoa comum. E não consegue mais deixar de ver os defeitos irritantes, a mania boba ou aquela grande falha de caráter que antes estava encoberta por um véu cor de rosa. E se assusta. Como fui me enganar assim?

O amor acaba de sofrer uma segunda parada cardíaca.

Por mais que você tente recuperar o encantamento de outrora, já era, it’s gone. Já não há máscaras e fazer o balanço do “vale a pena” é inevitável, mesmo quando se sabe exatamente o resultado. E o gosto do outro, a vontade do outro, o querer do outro, sempre tão importantes, começam a entrar em conflito com o nosso próprio querer. E começa uma luta com a gente mesmo.

Massagem cardíaca, desfibriladores, epinefrina.

Já não penso mais que dar adeus a uma relação signifique a frustração de todos os planos e projetos não realizados, dos quais se tem de abrir mão. Sigo, mesmo após o fim, acreditando que todas as promessas eram verdadeiras, todos os desejos, reais, afinal. Tudo o que foi dito era realidade no momento em que as palavras foram articuladas, ainda que só em ideias e vontades. Recuso-me a pensar que o que foi dito era mentira. Prefiro acreditar na efemeridade sincera dos sentimentos.

Porque não te amo mais nesse exato momento não significa que nunca te amei. Porque não nos casamos não significa que nossa vontade de dividir, de ter uma vida juntos pela eternidade do nosso sempre, não tenha sido real. Prefiro acreditar que nossas juras e promessas apenas tiveram seu prazo de validade expirado. Dói menos, pelo menos em mim, e me faz sentir mais livre.

Dói mais sempre pra quem fica. Quem parte fez o balanço, quem vai sabe exatamente – ou ao menos tem idéia – do que estava acontecendo e porque está indo. Quem parte já pesou e conferiu os resultados. Quem deixa já fez as malas e, por mais que doa, já está preparado.

Quem fica não sabe o que fazer. Chora comendo pastel, se descabela no ponto do ônibus, tem acessos de raiva, atira coisas pela janela, alterna drama, silêncio, gritos, compreensão resignada e inconformismo histérico. Foi pego de surpresa, todos os planos ainda nas mãos, no anular esquerdo o comprometimento único arde agora sem brilho. Todos os planos ainda por serem realizados, todos os sonhos ainda morando na cabeça. Só o objeto de seu amor não está mais lá. Como um luto de alguém que não morreu. Como pode fazer isso comigo?

Ainda ontem minhas mãos pertenciam às suas; ainda ontem meu corpo era tua morada. Hoje, dentro de mim um deserto.

Quem vai parece saber mais de si. Quem fica se perde um pouco. Ambos saem da sala pessoas diferentes.

Sentada no banco de frente para mim, a moça no ônibus chora. Não sei se perdeu alguém, se um amor se acabou ou se cruzou com alguém na canaleta. Se deixou ou foi deixada, se perdeu ou perdeu-se. Gostaria de conseguir consola-la, mas sei que é impossível. Cada um tem seu tempo de luto. Não sei em que direção estamos indo e quero muito acreditar que isso não importa.

Pois bem, amores acabam, senhoras e senhores. E talvez isso nem sempre seja ruim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s