Do elo

De si, sentia apenas os pulsos e os tornozelos circundados por pulseiras de aço. Não tão apertadas que machucassem, não tão soltas que se permitissem desvencilhar. Tinham um brilho fosco, exatamente como o anel que levava no anular esquerdo. Estanho.

Sentia os cílios longos baterem contra a lente dos óculos escuros, cuja armação eventualmente servia de prateleira às lágrimas que escorriam involuntariamente. Mas só às vezes.

Podia mover-se quase livremente. Andava pelas ruas como se nada houvesse, mestre de seu próprio cativeiro, sequestrador e sequestrado em plena Síndrome de Estocolmo. Era isso o que o outro desejava e o que desejava do outro: a sensação ilusória de poder mover-se livremente embora estivessem fortemente atados.

Os elos das correntes, em forma de coração, ainda assim eram elos. Eles, elos. Coração engatado em coração engatado em coração engatado no pulso. No tornozelo, atrapalhando os passos. As correntes invisíveis que arrastavam eram os próprios fantasmas.

No peito, o músculo cardíaco ileso, batendo regular. O coração intacto, trancado numa cela de aço. Intocado, puro. Cinto de castidade. Engolira a chave. Nunca mais.

No exato instante em que pensava “nunca mais”, olhos fechados, sentiu um par de luvas jogar longe os óculos escuros, esbofeteando sua face, incitando ao duelo.

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