Réquiem

Se é que te interessa, não tenho nenhum orgulho do mal que te fiz. Não me vanglorio de assombrar tua vida como um passado irreal, uma morta-viva que te incomoda, nem vejo como glória o sofrimento que te impus com minhas ações – bem pensadas ou impensadas. Se é que faz diferença saber, não gosto de saber que você sofreu.

Claro, ninguém gosta de fazer ninguém sofrer. E se eu pudesse, se eu tivesse tido tempo suficiente, certamente faria desse fim algo mais digno do que foi. Mas não tive tempo. A vida não acontece em capítulos, os fatos não esperam estarmos prontos para então acontecerem. Não preciso descrever as cenas dessa ópera. Continua a haver mais drama em minha vida e na das pessoas que me cercam do que eu gostaria que houvesse. Do que eu gostaria de admitir.

Se fosse para fazer um réquiem desse amor, ele não seria triste. E tantas vezes te disse isso: nossa história não foi ruim, foi bela. E se acabou mal, seja por vileza e incompreensão de minha parte, seja por exagero ou omissão da tua, é porque acabou. Fosse para acabar bem, não terminaria.

Desconheço todas as teorias que você deve guardar sobre isso. Desconheço metade das minhas, porque se penso sobre o que aconteceu, penso hoje e atrasado. Talvez me arrependa de coisas, talvez tenha certeza de outras tantas – a verdade é que o tempo se encarrega de esmaecer as tintas e hoje os vermelhos não parecem mais tão carregados.

Ficaram muitos sorrisos, sabe? Muitos sorrisos, mais que lágrimas. Mais leveza do que mágoas. O que de mais grave me bate é a sensação recorrente que eu tinha, de estar sendo exatamente o que eu queria ser, de estar no lugar certo, na hora certa. O medo de nunca mais vir a sentir isso.

Não que você se importe com qualquer dessas palavras. Não que isso seja um mea culpa. Talvez eu seja mesmo pretensiosa de pensar que causei algum dano, alguma marca, para bom ou ruim. Mas escrever é meu meio de tanta coisa – de fuga, de drama, de ficcionar, de realizar o que não posso – que me permito essa violação e esse crime sem adicionar essas palavras ao meu rol de culpas.

Não tenho mais medo de te encontrar, não tenho mais raiva ou ressentimento pelas interpretações furiosas nos últimos palcos em que nos encontramos. Tenho hoje uma consciência muito maior do que você é. Uma consciência inversamente proporcional a que tenho de mim: a cada momento me desconheço.

Não temo mais teu riso de escárnio ou tua espera pela vingança. Estou entregue à vida e muito pouca coisa me importa. Sei que esses sentimentos não me pertencem, como nenhum outro pertenceu ou pertencerá. Nada possuo, nem mesmo os dedos dos quais me roubam os anéis diariamente. Nem tenho impresso os álbuns de memórias. Mas levo em mim, engano ou certeza que desperdiço, a sensação de que tempo dividido foi de uma realidade tranquila e desejada, desfrutada da melhor forma que pudemos.

Levarei as lembranças sempre comigo, embora elas não me pertençam. Ficarão na biblioteca de memórias do mundo, a quem quiser consultá-las. Se são reais, se imparciais ou não, pouco importa: seu valor é outro. Elas me ajudarão sempre a escrever uma das minhas versões da história do mundo.

Um talvez na Terra do Nunca

O que tenho inquieto aqui dentro me coça.

Não era esse o fim que imaginei pra essa história.

Alguém murmurando palavras que eu não entendo e roubando cenas da minha vida. Fazendo primeiro as próprias vontades quando tudo o que ensinei foi mimar e proteger. Tudo o que te ensinei era que a vontade do outro era prioridade. Eu entendo, eu entendo. Eu era a que dava a corda, a permissão para que se roubassem beijos.

Não sei o que será de nós e de toda essa gente de quem falamos sem parar. Essa gente umbiguista e egocêntrica que ajudamos a criar e – mentimos – a crescer. Essa gente, como nós, não cresce e não vai crescer nunca, e às vezes não consigo esconder que isso me incomoda e preocupa.

Na Terra do Nunca em que nos perdemos, somos tão egocêntricos e hedonistas que já importa pouco o que colocamos em jogo ou risco para obter o que se deseja. E nisso consiste a minha loucura cotidiana de tentar permanecer com os dois pés fincados no chão. O que sacrificamos pelo objeto do desejo – porque a essa altura tudo se torna objeto – quase não importa mais, desde que haja a mínima chance de tê-lo entre as mãos, escorrendo, sorvendo, deglutindo-o por um instante.

Antes tivestes que me roubar beijos escondido, um falso Romeu pós-moderno. Agora que tudo está revelado e tudo sabes de mim, começo novamente a desacreditar minha ilusões recuperadas. Ao ver-te pela primeira vez, quis ter certeza de que isso não aconteceria. Ainda hoje falamos sobre a inconsciência inevitável presente nas ações. Não importa a escolha que façamos, só a saberemos boa ou ruim, certa ou errada, muito depois do “já está”.

Na Terra do Nunca que construímos, a verdade sempre está lá fora, ao sol, e os brinquedos perdem a graça. Nossas drogas são outras – o movimento, o novo, tudo o que saia do nosso mesmo. A rotina só é sociavelmente aceita se vier bem acompanhada – e me pego achando que quero um amor à moda antiga.

Não era esse o fim que imaginei para essa história, um mundinho de pecadinhos e traições, uma vida secreta em que queres meu corpo e fazes pouco caso se existem almas. Não havia te imaginado sórdido e mortal, ou apenas mais um, cometendo os mesmos erros, dando as mesmas desculpas, repetindo as mesmas mentiras.

E nisso agora consiste meu exercício diário, meu cotidiano onde já não cabem analistas ou antidepressivos. Equilibrar-me precariamente sobre esse tapete que insiste em jogar-me ao chão; firmar o pé justo no lado do chão da sala que quer virar teto. Sufocar qualquer pensamento suicida sobre o quão clara é a claustrofobia da segurança. Esconder-me de idéias imaturas que enxergam virtude na instabilidade.

Não fugir do ruim, não fugir do bom; permanecer. Desculpe-me, não há mais vagas aqui dentro para isso.

Ora, vá. Talvez esse não seja o fim a história, seja o meio.

teorias

Uma das teorias defendidas afirma que eu falei pra você o que eu sentia e logo em seguida fui ao seu encontro, largando tudo o que me fazia mal; enquanto eu voava você resolveu suas pendências e em pouco tempo eu me mudei pra sua casa. O que aconteceu depois me escapa, talvez o futuro seja ainda mais difícil de prever em universos paralelos, talvez apenas o destino inexorável seja comum a todos os caminhos: se perder, independente em qual dimensão.

Rootless Tree

What I want from you is empty your head
They say be true, don’t stain your bed
We do what we need to be free
And it leans on me like a rootless tree

What I want from us is empty our minds
We fake the thoughts, and fracture the times
We go blind when we’ve needed to see
And this leans on me, like a rootless…

Fuck you, fuck you, fuck you
And all we’ve been through
I said leave it, leave it, leave it
There’s nothing in you
And if you hate me, hate me, hate me, then hate me so good
That you can let me out, let me out, let me out
Of this hell when you’re around
Let me out, let me out, let me out
Hell when you’re around
Let me out, let me out, let me out

What I want from this
Is learn to let go
No not of you
Of all that’s been told
Killers re-invent and believe
And this leans on me, like a rootless…

Fuck you, fuck you, fuck you
And all we’ve been through
I said leave it, leave it, leave it
There’s nothing in you
And if you hate me, hate me, hate me, then hate me so good
That you can let me out, let me out, let me out
Of this hell when you’re around
Let me out, let me out, let me out
Of this hell when you’re around

Penélope

Magritte

No início, o silêncio a deixou exasperada. A familiaridade que ambos partilhavam com as palavras fazia dos espaços em branco um desconforto. Tolice – pensou. O silêncio era apenas o prenúncio do embate, do encontro, do espetáculo, da dança. Talvez fosse melhor assim, sem o verbo na língua, sem telefonemas ou troca de impressões pregressas. E começou a usar os espaços em branco como hiatos, anúncios de viagem no meio da vida real. Parênteses.

Era o tempo exato para se preparar. Beber mais água, abandonar os vícios, não cortar os cabelos para poder enredá-lo nos cachos, procurar o hidratante certo, tomar menos café. Lamber as feridas para que não aparecessem tanto sob a roupa. Não estariam plenamente cicatrizadas no encontro, mas sabia que isso não era tão importante. As asas estavam lá, plenas, embora desacostumadas ao uso. Voar era como andar de bicicleta. Os silêncios contam muitas histórias.

Estudava física quântica, ainda que ela fizesse tudo mais incoerente. Sabia que caminhavam juntos, os pensamentos partilhados na dobra espaço-tempo, frases que se repetiam na distância, em contextos e diálogos diversos. As mesmas frases a quilômetros de distância. Os mesmos desejos. A delicadeza do desejo refletido, a fome igual. A espera agora purificava. O outro lado do espelho não é sombrio.

Usava os espaços em branco recém-descobertos para produzir a literatura que seria contada entre dentes, ao pé do ouvido. Assoprada nas costas, nas nucas, entre os dedos. A literatura que seria tecida entre fios de cabelo e gotas de suor. No banho, no caminho para casa, no intervalo de uma reunião… Tecia só, Penélope de verbos ainda por conjugar. Sabia que isso – a espera, o silêncio – já fazia parte do seu presente.